04
Mai
09

Life’s too short

Eu, réu de mim
… o advogado de defesa faz suas alegações finais…
Quantas oportunidades perdidas, quantas coisas por dizer, quanto sangue desperdiçado pelos olhos. Nunca fomos tão incapazes __por bestas deficiências emocionais legais, cegas__ de abarcar e relacionar tantos assuntos, até mesmo díspares e contraditórios, com tanta lógica e engenho, sem exceção, demonstrando os graves acidentes de percurso que um pensamento apaixonado-confuso e expansivo-perdido pode sofrer por não haver a compreensão subliminar mútua. Nunca fomos culpados, pois, estas letras não interessam, nem devem interessar a ninguém e não quero que interesse. Nossa história não vende.

Nós, os personagens, vociferamos, caluniamos, analisamos e diminuímos os objetos de contemplação resignada em todos os sentidos e direções, acusando fracassos, denunciando preconceitos e, de modo intenso e arrebatado, transferindo culpas e responsabilidades, reclamando por uma vida miserável perdida por entre os dedos dos anos (e que talvez nunca tenha existido). Quando na verdade queríamos o doce… nos queríamos com toda força sanguínea, com toda força pulmonar, fundir visceralmente carne na carne, dente com dente. Mas, o verbo soou mudo, distorcido pela corrosão abrasiva de muita comunicação dispersa entre espinhos.
Na acidez da visão, pela ira da voz, os manuscritos vitais, tortuosos e densos poderiam ser facilmente contra-indicados a todos os espíritos frágeis desejosos de palavras leves, frugais e imaginárias – o mundo amargo e asfixiante da fome existencial, que parece não possuir espaço para a inocência: as frases de sintaxe complexa em Braille para leitores de pupilas dilatadas às portas da percepção, as constantes repetições ensurdecedoras para indiferentes, a detalhada exposição das fraquezas depenadas de tudo e de todos: um universo inebriado em plena decomposição, que a narração recupera e lamenta enquanto busca culpados que possam responder por tudo aquilo que se perdeu. Quem pagará pelo breu?


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